"Ficou a ideia de que é licitamente moral tratar o atleta como coisa. A esse processo dá-se o nome de coisificação, o qual advém do verbo coisificar. É comum ler ou ouvir que determinado atleta foi vendido por um clube a outro, como se um bem ou objeto fosse, inclusive, há quem consiga abandonar o passe, sob o argumento de que há outra nomenclatura mais adequada para designar o vínculo desportivo gerado entre empregado e empregador. Um exemplo disso pode ser visualisado ao se ler que:
'Não se pode olvidar, contudo, que transações envolvendo a transferência de atletas de um clube para outro configuram, claramente, um ato de comércio. Negocia-se o passe do atleta, quando não interessa mais à entidade, como se negocia um bem de consumo, um veículo, um terreno. Leva o atleta o clube que pagar mais' (Fábio Menezes de Sá Filho, no livro 'Contrato de Trabalho Desportivo', citando Alexandre Bueno Cateb)"
O tópico relacionado trata do extinto instituto do passe, considerado por muitos análogo à condição de escravo. Atualmente, o trabalho do atleta profissional + submissão financeira, mesmo extinto o passe, como são as coisas, como é a "coisificação"?
Na temporada 2009-2010, a Argentina superou o Brasil em número de transferências de seus jogadores ao futebol estrangeiro. Segundo um estudo apresentado, nesta semana, enquanto o Brasil exportou 1.440 jogadores, os argentinos exportaram um total de 1.800 jogadores. Falando em estrangeiros... Dos times internacionais, foi dado como exemplo a Inter de Milão, que, em 2010, foi campeã italiana, da Copa da Itália, da Champions League e do Mundial de Clubes sem um italiano no time.
Do futebol brasileiro, por exemplo, foi embora o ex-gremista Jonas. O Valencia acertou com o artilheiro do Brasileirão 2010 por (apenas) R$ 2,85 milhões.
Mas, parando de 'miserê', vamos movimentar a grana desse negócio. Vamos ao mercado livre de 2010/2011, segundo a Futebol Finance. Só a dupla espanhola campeã mundial Fernando Torres e David Villa movimentou quase 100mi de euros, veja só (3 maiores transferências):
1. Fernando Torres, comprado pelo Chelsea, do rival Liverpool (chorando até agora): 58,5mi de euros;
2. Andy Carroll foi comprado pelo Liverpool por 41mi de euros, do Newcastle;
3. David Villa vendido pelo Valencia, ao Barcelona, por 40mi de euros.
Obs.1: Chelsea anunciou que, até o momento, acumula um prejuízo de 190 milhões de reais. Como se o russo Abramovich tivesse dado um real a cada um dos brasileiros.
Obs.2: Não citarei as contratações do Man. City para que não seja humilhado o restante do mercado (4 das 10 maiores transferências 2010/2011, cerca de 130mi de euros envolvidos) . NEM os 13 milhões de euros anuais de Cristiano Ronaldo. Hala Madrid! O melhor do mundo e Ibra, excluo também, segundo e terceiro, respectivamente, melhores colocados no pódio dos salários astronômicos mundial na temporada de 2009/2010.
Janela de transferências fechada.
E é nessa dinheirama toda que a gente se intromete, sem se envolver. Que a gente esbraveja, sem que influencie na paixão. Essa paixão que fica à margem de qualquer moeda que esteja na bandeja. Que seja suja, que seja desonesta, a gente se importa, mas não liga... Porque é o preço da camisa, do amado manto sagrado, que vale todo o grito, toda a voz que se juntar a tantas outras, naquela arquibancada louca. Se isso fosse, assim, de fato, importante para o amor desse torcedor apaixonado, a gente sabe muito bem que a história seria diferente:
Em 2009: 100 mil sócios no Internacional de Porto Alegre; Grêmio contando com 53 mil; e, em terceiro, através do Fiel Torcedor, adotado em 2008 pelo Corinthians, 46 mil torcedores se tornaram sócios.
Em 2010: média de público do Santa Cruz, na série D do Campeonato Brasileiro, foi de 30.243 pagantes (Fonte: Futebol Interior).
Em 2011, ontem: enquanto Liédson se despede de Portugal (acerta com o Corinthians / salário de 300 mil mensais), marcando dois gols no empate entre Sporting e Naval, emocionando a torcida, a Fiel não esquece o vexame na pré-Libertadores e protesta.
É, torcedor... Teu coração, um turbilhão de sentimentos... Tua emoção me emociona.
